O ET de Varginha e os biscoitos do seu filho

Levanta a mão aí quem já sabia exatamente como queria que os seus filhos encarassem a vida antes mesmo de engravidar! E levanta a mão aí quem sabia exatamente como fazer para que isso acontecesse!

Agora me diz se deu tudo certinho aí, camarada?…

Eu lembro muito bem dos primeiros dias de escola do Pedro. Seis meses de vida de uma mãe de primeira viagem! Tinha uma tal de entrevista com o diretor da escola. Fomos OS DOIS (pai E mãe). Por questões de racionamento de recursos humanos, acho que nunca mais fomos os 2 juntos a uma reunião, um médico, um aniversário… mas era a PRIMEIRA REUNIÃO, do PRIMEIRO ladrão de chupetas FILHO! O diretor me pergunta qual era a minha expectativa? O que eu esperava que o meu filho aprendesse. E lá nos meus pensamentos… “Virar cambalhota? Não, ainda não.” “Compreender as regras do jogo de vôlei? Ainda não também.” “Ai, minha nossa, eu adoraria que ele conseguisse pegar a mamadeira na geladeira de madrugada! Pode?…”

“Tudo bem. Pensa rápido… Preciso falar uma coisa de impacto! Pra mostrar que eu sou alguém que manja desse negócio de educação libertadora!”

Guenta essa, Paulo Freire: “Eu quero que o Pedro consiga desenvolver autonomia!” Ráá! Digam aí! Arrasei, né?

E eu queria mesmo, gente! Com a força de todas as maria-chiquinhas que minha mãe me fez na infância!

E aí vem a vida pra nos ensinar que… besta é tu! besta é tu!…

A mãe que eu sou e a mãe que eu gostaria de ser não são a mesma pessoa! Pobre dos filhos da gente, né?

 

Deixa eu explicar – se o seu filho de 5 anos leva em média uns 90 minutos para almoçar… a coisa certa a fazer é:

a. fazê-lo caminhar sobre brasas;

b. colocar a roupa na máquina, lavar a louça, ir no salão fazer as unhas e depois voltar pra ver se ele já acabou;

c. dar a comida na boca dele!;

d. não sei! De veras, não sei…

Ah, pois é… EU DAVA A COMIDA NA BOCA DELE!

 

Agora se o seu filho traz uma tarefa da escola em que ele precisa fazer um boneco de tecido, você:

a. não deixa ele fazer porque boneco é coisa de menina;

b. deixa ele fazer o ET de varginha sem perna e mostrar orgulhoso pra “prô” o bonequinho “lindo que ele fez”;

c. faz um lindo você mesmo (mas deixa ele ajudar passando a cola que, afinal, é transparente mesmo), porque quer que a professora e as outras mães saibam que você é uma mãe que participa;

Adivinhem, adivinhem… EU DEIXAVA ELE PASSAR A COLA!

Perdoai-vos, Pai! Eles não sabem o que fazem!…

 

Mais uma, mais uma… Se você flagra um “amiguinho” do seu filho “roubando” um brinquedo da mão dele, é fundamental que você:

a. chame imediatamente a polícia;

b. coloque sem querer o pé no caminho do “amiguinho” para que ele tropece e quebre o dente da frente;

c. cada um com os seus problemas. O seu filho que se vire;

d. vai na academia ver os horários do jiu-jitsu pra matricular o seu filho.

Ôpa! Fiquem frios… eu nunca fiz nenhuma criança tropeçar; nem meu filho foi matriculado no jiu-jitsu. A polícia também não foi acionada…

 

Tudo bem… quero acreditar aqui com os meus botões (e com o conselho tutelar) que eu não sou uma mãe sempre tão ruim assim… Alguém aí – í í í… (isso é um eco, gente!)… diz que eu sou bacaninha… Vó – ó ó ó?…

A gente vai aprendendo com a vida, as coisas estão melhorando… “Nem tudo está perdido. Maria Luiza amanheceu sem febre” (salve, Tom Jobim)…

Na luta diária contra a pessoa apressada e perfeccionista que eu sou, a mãe vence algumas, outras perde… mas acho que sobreviveremos todos – inclusive os filhos e a pessoa apressada!

Acontece que no nosso momento histórico atual, com 3 filhos, a coisa vai pelo caminho do “salve-se quem puder!” ou do “Rafinha, vai buscar o seu leite na geladeira!” (ôpa, ele ainda tá mamando no peito..) Então, minhazamiga, inda bem que a natureza é sabida e os mininu tão tudo crescido, manjando aí dos paranauê de banho, de ir no banheiro, de escolher a própria roupa, de levar a comida até a boca (Aêê!). Benzadeus! Até a pessoa apressada tá menos tensa!

***

Aí ontem aconteceu o seguinte:

Convidamos alguns amigos pra passar a tarde aqui com a gente. Fiz um bolo de laranja em 20 minutos (porque a pessoa apressada ainda vive! E porque eu tenho que dar mamá…) e, depois do almoço, propus aos meninos que fizéssemos um pão pro lanche. O Pedro decidiu que preferia fazer biscoitos. Eu tentei dar aquela escapada estratégica pela esquerda, porque a ideia de uma gangue de 6 crianças cortando biscoitos, me pareceu meio assustadora depois de uma noite mal dormida (tipo assim, filme de terror mesmo!)… mas ele tava tão decidido, que a mãe em mim disse: “Claro, filho, vai ser ótimo!”…

Ele trouxe a pasta de atividades da aula de inglês, a Happy Day School, e tirou de lá a receita dos biscoitos que fizeram na última aula, toda linda, pedagogicamente irresistível! Tentei fazer só meia receita, mas o danado tava ligado no ingrêis, prof!

Happy Day School

Bom, fizemos a massa e levamos à geladeira, como manda a receita! Nesse meio tempo, os amigos chegaram e eles ficaram entretidos demais brincando, correndo, acordando o Rafa… e o Pedro esqueceu da cozinha! Ufa!

Às 19h, depois que todos já tinham ido (e que o pai não tinha chegado) ele lembrou que queria fazer os biscoitos. O causo é que hoje tinha uma atividade na escola com os autores de um livro sobre dinossauros e a grande sacada do menino era fazer biscoitos com os cortadores de dinossauros pra levar pra eles!

“Pedro, meu filho, vocês têm que tomar banho, jantar, temos que dar banho no Rafa, tem tarefa pra fazer… acho que hoje não vai dar mais tempo…”

“Mas mãe, dá, sim! Eu sei fazer!”

Quem sou eu para criar encrenca com criança determinada?… Eu, hein!?…

As condições: jantar e tomar banho primeiro; biscoitos depois!

Pois eles jantaram rápido e tomaram banho. Fui dar banho no Rafa.

“Mãe, acho que eu posso ir fazendo com o Caetano. Eu já sei como faz.”

Hmmm… tá se achando, moleque! De fato, já fizemos biscoitos juntos algumas vezes, mas sabem como é… quem abriu a massa? Eu, né? Me achava insubstituível…

“Tá bom, Pedro. Vai fazendo lá! Mas eu ligo o forno!”

E aí começou a maratona dele cozinha – banheiro – cozinha, vindo pegar as instruções: “Limpa a bancada, então”. Vai e volta. “Pega a farinha e o rolo”. Vai e volta. “Espalha farinha na bancada. Não no chão nem nas paredes!”. Vai e volta. “Pega uma bola da massa, amassa e coloca em cima da farinha”… Eu tava achando que, das duas uma: ou eu ia chegar na cozinha e não ia ter acontecido nada ainda ou eu ia ter que chamar o Santa Ajuda pra encontrar os meus filhos no meio das panelas e da farinha!

Pois não é que eles estavam trabalhando direitinho?… Sentei numa cadeira e fui dando mamá pro Rafa enquanto dava algumas instruções básicas à distância. Uma distância segura para todos, é claro!

Fazendo biscoitos

(as fotos foram tiradas com o meu celular mesmo, com essa qualidade aí questionável na luz baixa, mas faltou mãe pra pegar a máquina… Sorry…)

Eu juro que vi com esses olhos que a terra há de comer… eles fizeram quase tudo sozinhos!

Biscoitos

Sente só o orgulho:

Biscoitos

(por pouco não botei o Pedro no forno junto, de tão enfarinhado que ele tava)

Claro que depois que o Rafa mamou eu dei uma ajuda, porque a gente precisava terminar antes do fim do ano letivo, mas eles fizeram a maior parte do trabalho!

E me arrisco a dizer que foi a fornada de biscoitos com o maior tempo de participação da história dessa casa! Até que o último biscoito saísse do forno e fosse embalado pros amigos da escola, eles ficaram ali fazendo acontecer!

Que coisa, não?… Não é que, se a gente deixar, os filhos da gente crescem mesmo?… Fiquei de cara!…

***

Pipou, vão desculpando aí o post meio sem pé nem cabeça, viu? Não sei bem se é a privação de sono ou se tinha fungo no meu chá de hortelã, mas é assim que eu sou hoje… (cadê aquele emoji de sorrisinho amarelo quando a gente precisa dele?…)

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